Quando eu era adolescente fui estuprada. Muitas mulheres foram. Mas falar sobre isso é difícil. Não há espaço para conversa. É um assunto desconfortável. Ninguém quer ouvir. Não é uma conversa agradável. Falar sobre isso não é agradável. Não são memórias boas de se reviver. Fazem uns dez anos que aconteceu, e eu nunca falei sobre isso com tantos detalhes com ninguém. Nem em terapia, nem comigo mesma. Gravei esse áudio em trechos, ao longo de dois dias. Montei a peça sonora em trechos. Ouvi ela inteira somente uma vez.

Não é gostoso de ouvir. É difícil de apresentar em público. É vulnerável. É muito desconfortável, mas terrivelmente necessário.

Planejei a instalação com a intenção de tornar a experiência tão incômoda quanto fui capaz. A montagem induz o visitante a se precipitar em conclusões. Ao se deparar com uma cama de casal e um filme pornô rodando no fundo, existe uma leitura direta e clara: a peça fala sobre sexo. Os fones de ouvido ficam só na segunda parte da sala e imagino que várias pessoas sairão da instalação sem ter escutado o áudio, sem entender ao certo o que estava sendo dito. Para algumas pessoas somente o vídeo pornô projetado em grandes dimensões num espaço público será o bastante para causar desconforto. Mas esse trabalho não fala sobre sexo. Estupro não é sexo. É outra coisa.

(sangue),  2020

pastel oleoso sobre papel

/ oil pastel on paper

55x55 cm

1. Facas, 2020

2. Cadeira, 2020
3. Gancho, 2020
4. sem título, 2020

5. Perna, 2020

6. Carne, 2020

©2020 luisa callegari