CADAFALSO _performance _Luisa Callegari , Sansa Rope , Guilherme Peters _VERBO 2022 , foto

registro fotográfico Ana Vohs

Cadafalso é o palanque sobre qual se realizam atos públicos de execução ou cerimônias solenes. A performance apresenta uma tentativa de diálogo entre dois personagens construídos a partir de referências históricos. Ao longo do trabalho, a fala se transforma em ruído e culmina em um conflito violento, intermediado por uma terceira entidade que gera restrições físicas através do shibari.

Cadafalso (scaffold) is the platform where public acts of execution or solemn ceremonies are performed. The performance presents an attempt of dialogue between two characters constructed from historical references. Throughout the work, the speech turns into noise and culminates in a violent conflict, mediated by a third entity that generates physical restrictions through shibari.

CADAFALSO


Guilherme Peters, Luisa Callegari e Sansa Rope

Figurino: Maíra Mesquita

Colaborador: João Rios

- Eu realmente não tava esperando uma execução assim.

 

- Assim como? 

 

- Com esse misancene todo, com tudo isso de gente assistindo, com essa roupa constrangedora. 

 

- Eu só queria ser executada junto com mais gente.  

 

- Com quem mais?

 

- Com aquele ali. Com aquele ali. Com aquele ali

 

- Tipo um bukaki de sangue?

 

- Sim! uma gangbang de tripas! com a humanidade toda!

 

- Sim cara! Eu também 

 

- Como você extinguiria a raça humana?

 

- Com o empalamento de pessoas?

 

- Cortando a cabeça de inimigos?

 

- Com a colonização de um território?

 

- Bebendo o sangue de jovens?

 

- Com um fuzilamento em massa?

 

- Atirando do alto de uma pedra?

 
- Gás?

 

- Guerras Santas?

 

- Guilhotina?

 

- Forca?

 

- Fome? 

 

- Fogueira?

 

- Esquartejando?

 

- Envenenando?

 

- Com uma rede social?

 

- fazendo todo mundo se matar?

  

- Eu acho que eu gostaria mesmo é de exterminar através de histórias.

 

- Como com histórias?

 

- Somos personagens dentro de uma história que contamos para nós mesmos. As narrativas moldam o pensamento. É possível guiar toda a humanidade para o mais profundo abismo só através de história; Os genocídios são atos para se afirmar histórias.

 

- Eu adoro histórias e eu adoro genocídios! Minhas histórias favoritas são aquelas sobre os genocídios que conseguem se perpetuar para sempre porque venceram e convenceram todos que sobraram vivos de que a história deles era a história certa

 

- A linguagem sempre foi a melhor arma à nossa disposição.

Quem sabe a gente pode unir nossas línguas e criar um enorme Megazord dramático, e com ele abrir um buraco no céu deixando tombar uma chuva de fogo que vai extinguir a raça humana.

  

- Unir nossa voz por um desejo comum de exterminação generalizada. Acho poético

 

- Você acha fácil transformar extermínio em poesia? 

 

- Logo você - responsável pelas tantas pessoas que observaram fixamente durante alguns minutos com o cantinho do olho o cantinho da lâmina afiada e pesada de quarenta quilos pendurada lá no alto a quase três metros de altura por trás de seus pescoços - você quer falar da minha violência?

 

- A guilhotina tornou execuções em experiências humanitárias! A lâmina cai como um raio, a cabeça voa, o sangue jorra e a pessoa deixa de existir sem dor.

 

- Sem dor? Sem graça.

 

- Sofrimento desnecessário ficou no passado medieval, todos devem ser iguais, na vida e na morte. 

 

- Sofrimento nunca é desnecessário. Sejamos sinceros... O que poderia ter sido a vida daquelas moças? Casar, parir, morrer. Eu dei a elas a oportunidade de participarem de algo muito maior do que elas poderiam ter sido em suas existências miseráveis. Em sua pureza, me doaram seus anos de vida através de seus litros de sangue para que eu pudesse vivê-los de maneira muito mais plena do que elas teriam sido capazes de sonhar. Se você pudesse escolher viver para sempre, escolheria morrer como outra pessoa qualquer?

 

– Eu escolhi morrer como uma pessoa qualquer. Eu sempre soube das as consequências da minha última fala, todos sempre morriam de medo quando eu começava a falar, por isso eu sabia que seria deposto, sabia que iria ser morto. Tentei me matar antes com um tiro na minha boca, mas a bala escapou pela minha mandíbula, fiz mó caca, e fracassei até na morte. Minha boca ficou desfigurada, não conseguia mais emitir uma palavra, e só fui morto depois de não ser capaz de falar. Cê vê, a linguagem era minha única arma. Sem poder falar eu morri como uma pessoa comum. A lâmina caiu como um raio, a cabeça voou, o sangue jorrou e eu deixei de existir.

 

- Sem dor? Não doeu nada?

 

- Não doeu nada. Mas ser guilhotinado foi uma experiência incrível! Pena só que não dá pra repetir.   

  

- Meu encontro com a sentença de morte foi um pouco mais dramático. Aflita com a corda no pescoço, pedi pela misericórdia de Deus antes do chão se abrir aos meus pés, mas a misericórdia não veio e só morri quando, depois de três minutos me contorcendo, o carrasco me ajudou com suas mãos. 

 

- E teve justificativa para toda essa dor?

 

- Tudo isso por um pouco de arsênico… Eles diziam que a mulher deve ficar no lar. Um marido que diz que vai te sustentar pode ser bom, mas o seguro de vida paga tão melhor que salário miserável dele. Arsênico custa tão barato. Aí então casei com outro, e engravidei de outro. Arsênico! A mulher deve cuidar da casa e dos filhos, mas você já tentou cuidar de uma casa e de filhos?! Uma casa é tão mais gostosa vazia. 

 

- Assuntos pessoais nunca me interessaram, sempre me preocupei mais com a subjetividade coletiva e como uma sociedade pode se corrigir se remodelar. Só assim que uma revolução cultural acontece. Uma doutrina só pode ser substituída por outra doutrina. 

Exterminar é uma maneira de esculpir, de dar forma a um povo. Uma nação não consegue sobreviver com modos de vida antagônicos, um lado precisa vencer.  

 

- Ninguém me creditava como rainha. Precisei contra-atacar e acontece que ganhei. Agora é crime ganhar uma guerra? Diferente dos reis que tiveram sucesso expandindo seus reinados, eu entro nos livros de história como uma tirana implacável. Matei algumas centenas de pessoas sim, mandei matar elas. É assim que se faz política. Não se pode controlar grandes territórios sem derramar sangue.  

 

- Empalei um exército inteiro, não para impor domínio através do terror sob os invasores islâmicos, mas para tentar desvendar qual é a relação tão próxima entre dor e prazer. adorava ver o sangue espesso jorrar por todos os orifícios. Passei a beber o sangue dos meus inimigos, para que fosse atribuído a essa imagem um gosto. Depois de um certo tempo não bastava ver uma estaca atravessar um corpo na vertical, eu tinha que sentir o gosto do sangue que esse gesto produzia.  

 

- Aquele pirralho, que ainda nem porra produzia, rei?! Com a audácia de tentar vir meter um golpe para cima de mim! Uma tentativa ridícula de tirar o trono que era meu por legítimo direito! Depois me chamam de louca, transtornada. “Ah, que sede de sangue ela tinha!” Os padres e os protestantes vivendo em uma grande festa da obscenidade, como poderia assistir tudo isso parada? E digo mais! Achei foi pouco. Se pudesse voltar atrás tinha matado mais. Teria matado também cada um daqueles médicos que me induziram a acreditar que estava grávida. Eles são os especialistas, mas a maluca na história sou eu!  “Ah, que sede de sangue ela tinha!” Como que não teria?

 

- Eu sempre soube como controlar minha corte, controlar o desejo e os afetos do meu povo. Eu entendi desde cedo que o poder da minha autoridade estava com os dias contados. Tinha consciência que eu só poderia controlar minha corte se tivesse o controle de como as pessoas se comunicam, falam, flertam, dançam. Por isso, escrevi tratados de gestos e costumes. O Palácio de Versailles também foi construído com esses princípios, com grandes salões de espelhos obrigando a corte a olhar para si a todo momento. Todos imitando todos, todos controlando todos para que ninguém exista de verdade. A vida na colmeia é permitida apenas em favor da massa. Se trata da implantação de um controle por meio da construção de uma auto-imagem. Eu sempre soube: a selfie é o espelho sem o perigo da reflexão. 

 

- Você já observou a dor nos olhos de alguém? Há poucas coisas mais belas neste mundo. Meu livro favorito era o Frankenstein: achava brilhante essa ideia de reconstruir um corpo através de vários pedacinhos. E aí decidi tentar eu mesma. Uma das minhas experiências favoritas foi quando quebrei cada ossinho da mulher para que ela coubesse dentro de uma pequena gaiola de metal para cachorros. Teve outra bem especial em que amputei braços e pernas com meu serrote favorito, que tinha um cabo amarelo bem chique, e recosturei eles todos meio tortos fora do lugar para criar um homem-caranguejo. 

 

- O terror sem a virtude é condenável e a virtude sem o terror é impotente. Não há transformação sem mortes, sem terror. É como esculpir mesmo, sempre vai ter matéria perdida durante o processo. A revolução é como Saturno devora seus próprios filhos. Não dá pra ter disputa durante o processo revolucionário. A revolução só tolera a pluralidade de opiniões até certo ponto.  É por isso que tive que massacrar os marinheiros. E assim o processo histórico só ganha forma através de matéria perdida. 

 

- Essa matéria perdida me interessa muito mais do que a matéria que fica. Entre guerras e sentenças, fui sim responsável pela morte de metade da população daquela ilha. Mas com essas mortes garanti a proteção dos ideais, que importavam muito mais do que as pessoas.  

 

- O que realmente dá forma a uma nação é a linguagem, por isso sempre tentei aniquilar a linguagem dos povos originários das minhas colônias. Eu uso a linguagem como mecanismo de controle, é uma arma dupla, ao mesmo tempo que subtrai a fala do outro, impõe uma nova. O controle sobre a linguagem necessariamente implica controlar o pensamento, pois submete o pensamento a uma determinada estrutura, ou a retira, num esvaziamento da experiência. Uma colônia nunca pode ter um senso de autonomia, se você destrói a linguagem local, você destrói qualquer possibilidade de um pensamento autônomo. 

 

- Sabe minha maneira predileta de destruir o pensamento autônomo?! Tinha essa noz, tão especial, que já há tantos anos era usada para só alguns casos tão poucos mas que faz o acusado sofrer tanto e com tanta dor e por tanto tempo. Um ladrão? Uma bruxa? Um cristão? Por que não dar esse veneno para qualquer um que for acusado de qualquer coisa só para podermos assisti-lo contorcer-se de dor antes de ser condenado à pena de morte? Ou talvez morrerem ali na hora mesmo por efeito do veneno?  

 

- Um vírus não te destrói de imediato, pelo contrário, te enfraquece por dentro, transforma suas próprias células em inimigos. Ele só te descarta depois de ter te usado para se espalhar exponencialmente para todos ao seu redor. Informação é um vírus capaz de deixar todos vulneráveis à manipulação. O melhor modo de matar é através da indução, induzir pessoas a matem umas às outras, induzir pessoas a se manterem. Nossos feeds e nossos mecanismos de busca são modelados por algoritmos cuja única motivação é selecionar o que engaja, o que vicia. E assim o vício foi instituído e comercializado. O fascínio pela construção de uma autoimagem foi comercializada. As histórias, a timelines, o passado, o presente, o futuro foram comercializados. Matar a subjetividade humana é muito mais prazeroso que matar a própria humanidade.

 

- Eu adoraria te induzir a se matar através da sua subjetividade, pena que não teria tanto sangue. 

 

- Cê que acha que não teria sangue. 

 

- A é? Subjetividade sangra?

 

- Prá caralho

                                                                                           

- Eu gosto de sangue. Sempre achei sangue bonito. A textura líquida viscosa de mel melado xarope de guaco que bem poderia ser uma calda de sorvete sabor cereja com groselha. Uma calda de sorvete perfeita para a cobertura do delicioso sundae da violência.

 

- Pois é. História não é só literatura, é um monte de corpos empilhados também  

Texto: Guilherme Peters e Luisa Callegari

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